Do que falam os Mitos – AVEC EDITORA
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Do que falam os Mitos
On 01/12/2017 | 0 Comments

Do que falam os Mitos – por Nikelen Witter

É bem provável que nove entre dez autores de literatura fantástica admitam ter interesse em mitologia. Destes nove, é razoável admitir que uns sete tenham em casa algum manual ou dicionário mitológico. (Se você se interessa por literatura fantástica e está nos três que não possuem livros de mitologia, eu sugiro que resolva esse “problema” com urgência).  No entanto, quando nos referimos à mitologia, e ao fato de ela ser uma fonte perene de inspiração para escritores (de qualquer tipo de escrita), a maioria das pessoas não vai além do óbvio.

De fato, é um comportamento até natural. Para a maioria, basta falar em mitologia e imediatamente vêm à mente os deuses gregos. Em seqüencia, pensa-se nos deuses nórdicos e, depois, dependendo da idade ou da vida, vêm à lembrança algum livro, filme ou música que remeta a isso. Somente no finalzinho do pensamento é que a maioria das pessoas recomendam que a mitologia é parte integrante de todas as culturas, inclusive da nossa. E, em diversos níveis.

No entanto, mesmo que o raciocínio leve a esta conclusão, ainda encontraremos pessoas que compreendem mitologia da seguinte forma:

  1. Como uma mentira, um engano; fruto da ignorância, seja da “verdade” de um deus único, seja das verdades científicas.
  2. Como uma série de histórias de cunho literário, com as quais as civilizações “primitivas” explicavam sua realidade e/ou completavam as lacunas de sua ignorância.
  3. Coletâneas de fantasia elaboradas a partir dos medos e superstições (detesto essa palavra) dos nossos antepassados.
  4. Fonte para teorias da conspiração que vão desde os deuses astronautas até a ideia de conhecimentos humanos perdidos ao longo da história (o que, na verdade, gera obras bem interessantes) em função das guerras, do cristianismo ou do capitalismo (os vilões variam).
  5. Por fim, os que confundem mitologia com o uso moderno da palavra mito, que identifica ícones do cinema, da música, da política, etc.

O fato é que, se a mitologia estivesse encerrada em qualquer um destes moldes, ela dificilmente seria tão rica a ponto de inspirar por milênios pessoas dos mais diferentes credos e orientações. Mitologia não são simplesmente histórias divertidas com deuses, monstros e heróis. Não se trata de um conjunto de narrativas, com absurdos produzidos pela ignorância, que povos “primitivos” contavam para afastar o seu medo da escuridão. É certo que ela é constituída em forma de narrativas. No entanto, quando falamos de mitologia estamos falando de um tipo de linguagem, muito mais do que sobre a forma final como ela nos é apresentada.

Dificultei? Ok, eu explico.

Por mais ricas que sejam as histórias mitológicas, não é na história em si que encontramos o potencial inspirador, mas na linguagem em que foram compostas. A linguagem mitológica é essencialmente simbólica. Logo, ela está falando também às partes irracionais, não atentas, inconscientes e adormecidas do nosso cérebro. Poeticamente, pode se comparar a linguagem mitológica àquela utilizada pelos sonhos.

E o que isso tem de diferente da linguagem das outras histórias que ouvimos?

Bem, para compreender a diferença, podemos fazer uma comparação simples. A linguagem a que estamos acostumados é uma linguagem digital. Ela se baseia em signos simples, um código que todos (ou quase todos) conhecem e que nos permite interpretar o que lemos, ou o que nos é dito. São sinais, letras e palavras que devem ser decifrados em seu sentido concreto. Se o comparássemos a um relógio, seria este:

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A linguagem mitológica, ao contrário, é analógica. Ou seja: o que é dito não está apenas no signo. É necessário que se leve em conta o gestual, a linguagem do corpo, a entonação da voz, as expressões do rosto daquele que narra o mito. Tudo isso pode alterar significativamente o conteúdo do que é contado. De fato, a simples mudança do narrador pode alterar o conteúdo completo de uma história, porque ao contar, o narrador empresta a si mesmo como matéria para significar o que é narrado. Logo, o relógio que representa esta linguagem é este.

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Perceba, no primeiro, você perde o que existe entre um número e outro. No segundo, a passagem do tempo se faz clara, visível e há um mundo dentro dela.

O mito é antes de mais nada um símbolo, uma imagem pictórica que se serve apenas transitoriamente de palavras como veículo para expressar algo muito maior do que aparece digitalizado […] há mais entre uma palavra e outra contida em um mito do que uma infinidade de palavras poderia dizer. (FARJANI, 1991).

É por este motivo que os mitos são imortais. Este é o porquê das histórias contadas pelos gregos, pelos egípcios, pelos guaranis ou pelos nórdicos e germânicos ainda estarem vivas para nós, milênios após terem sido narradas pela primeira vez. Ainda assim, vamos fazer algumas diferenças conceituais úteis.

thor-fighting-with-the-giants-marten-eskil-wingePrimeiro: os mitos são primordialmente narrativas sobre a criação. Eles se referem ao como alguma coisa passou a existir. A linguagem em que se expressam tem, portanto, um caráter sagrado. Seu papel é descrever e/ou recriar, sempre que possível a origem de algo ou alguém.

Segundo: muitos mitos, com o tempo, misturaram-se a lendas, assim é possível encontrar narrativas em que o surgimento de alguma coisa vem em conjunto a uma jornada lendária. As lendas podem se acumular junto aos mitos centrais, respondendo sobre as vidas anteriores e posteriores de determinados deuses ou seres especiais. A este conjunto amplo e jamais completamente fechado chamamos: Mitologia.

O uso das palavras aqui terá, portanto, este significado. Mito é a narrativa criadora por excelência, enquanto a mitologia é o conjunto completo de narrativas criadoras e heróicas que constituem a essência dos povos que as contaram.

Contudo, se formos esmiuçar tanto os mitos quanto os sistemas mitológicos em que se inserem, nos depararemos com questões que renderiam (e rendem) livros e livros. Vou apenas apontar algumas:

  1. O tempo nos mitos não é cronológico, ele é circular. É feito de nascimento/morte/renascimento, no chamado eterno retorno. As próprias profecias aí têm outro sentido. Elas não estão a falar sobre o futuro, mas sobre o passado e sobre o presente. Quando uma profecia aparece em um mito ela é fatal porque, na lógica do tempo mítico, ela já foi cumprida. As mitologias podem trabalhar com tempos diversos e, em alguns casos, podem até tocar a história.
  2. O espaço nos mitos também não pode ser localizado, mesmo que se busque um ponto geográfico para sua existência. O espaço é somente um, aquele em que se deu a criação, é o espaço sagrado, aquele só atingido pelo arrebatamento, ele é imaterial, e não reconhecível pelas ferramentas intelectuais. Nas narrativas ele fica no alto de uma montanha inacessível, no fim do mar oceano, para além das terras habitadas, nos ínferos, em Asgard. São os locais só atingidos nas mortes que perseguem as jornadas iniciáticas de deuses e heróis.
  3. Os mitos nasceram como narrativas orais e, sendo assim, mutáveis. Logo, não há uma versão “mais” correta de um mito. Ao serem escritos, eles acabaram mutilados em seu sentido sagrado, mas não de sua simbologia. A cada leitura, o mito poderá soar diferente àquele que lê, e não será a mesma história para cada leitor. Os narradores dos mitos no passado eram chamados Aedos e se serviam da música, das rimas poéticas, e do ritmo para memorizarem as histórias e para arrancar seus ouvintes do mundo profano e levá-los ao espaço/tempo sagrados. Somente lá, eles poderiam presenciar os acontecimentos da criação exatamente como eles ocorreram no início (qualquer semelhança com o ritual católico não é mera coincidência).

Quer saber um pouco mais (além daquele dicionário de mitologias que você tem de conseguir para ontem)? Aqui vão algumas sugestões:

  • FARJANI, Antonio C. A Linguagem dos Deuses. São Paulo: Mercuryo, 1991. – O autor é psicanalista, mas a leitura é acessível e bastante estimulante por trabalhar com elementos comuns a diversas mitologias.
  • CAMPBELL, Joseff; EISLER, Riane; GIMBUTS, Marija e MUSÈS, Charles. Todos os nomes da Deusa. Trad. Beatriz Pena. Rio de Janeiro : Editora Rosa dos Tempos, 1997. – Nem vou indicar a O Herói de Mil Faces ou A Jornada do Herói, porque sei que este já está na lista de quem gosta do assunto (quem não os tem lá, coloque logo). Mas este livrinho aqui é uma preciosidade. Foi publicado após a morte do Campbell e é um conjunto de textos debatidos por diferentes profissionais mitólogos. Quer saber da deusa entre os homens das cavernas, os chineses e os mesopotâmicos? Sobre a virgem Maria, a matemática (aham) e o TAO? Então, leia.
  • ELIADE, Mircea. Mito e Realidade. São Paulo: Editora Perspectiva, 1994.– Um clássico, ou seja, obrigatório. Alguns acadêmicos podem considerá-lo superado, mas como nosso interesse não é acadêmico… Tem que ler.
  • LEEMING, David. Do Olimpo a Camelot. Um panorama da mitologia europeia. Trad. Vera Ribeiro. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2004. – Um pouco controverso pela abordagem para alguns puristas, o livro interessa por sua busca em perceber o que há de comum nas mitologias européias, por vezes com referências a outras mitologias fora da Europa, e, neste sentido, no que há de comum ao humano. Vale à pena.

Por fim, apenas para ilustrar o que quis dizer com “se mudássemos o narrador, mudava a história”, sugiro a leitura do conto Pierre Menard, o autor de Quixote, de Jorge Luis Borges (do livro Ficciones). Com certeza, a explicação é melhor que a minha.

Até a próxima!

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