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As dificuldades para o autor nacional
On 30/03/2017 | 0 Comments

(Por Artur Vecchi, editor da AVEC Editora)

Esses dias apareceu nas redes sociais um texto sobre o porquê dos autores nacionais não serem lidos, mas ao ler a matéria, era apenas um “clickbait” de propaganda de um livro nacional e um “mimimi” contra a rejeição que o original obteve em grandes editoras. Nada do que eu gostaria de estar lendo. Isso me fez pensar a respeito e resolvi escrever algumas razões pelo qual é tão difícil o mercado para o autor nacional.

Sou editor de uma editora pequena chamada AVEC Editora que publica literatura fantástica nacional (RIO: Zona de Guerra, Guanabara Real: A Alcova da Morte, Doce Vampira, Le Chevalier e a Exposição Universal, Filhos da Lua: O Legado e O Caminho do Louco – Guerras do Tarot) e que recebe inúmeros originais ao longo do mês e sou eu que costumo fazer a análise dos originais que vão ser publicados. Como a editora é pequena, eu também faço a parte comercial e estou em contato com os diversos membros da cadeia do livro, posso falar um pouco a respeito. Vou listar a seguir diversos fatores que impactam sobre uma obra nacional:

1) Todo mundo sabe escrever, mas só uma pequena parte sabe “ESCREVER”.  Algumas profissões exigem anos e anos de estudo e prática para alguém tornar-se relevante na área. Uma grande parte dos autores acha que precisa somente da habilidade básica de escrita, aprendida nos primeiros anos de escola para escrever um livro. Mas para escrever bem, normalmente o autor necessita de bagagem de leituras, pesquisas, tempo, ter uma história com princípio, meio e fim que valha a pena ser contada, e o mínimo de estilo que não torne a leitura um saco. Isso não se consegue da noite para dia, e muitas vezes é um trabalho solitário que vai exigir escrita e inúmeras reescritas.

A grande maioria dos originais que eu recebo na editora, de autores nacionais, dá para ver claramente que o texto ainda não chegou ainda em nível mínimo para publicação. Há até boas ideias, mas de uma maneira geral, falta tempo de reescrita e senso crítico dos autor. Mas infelizmente, ele só apresentou o texto para pessoas que disseram o quanto a história é boa, linda, maravilhosa, e isso deixa o ego do autor lá no alto, apesar do que ele estar entregando não ser isso tudo. É normal acontecer, pois apesar do texto não estar pronto, já se foi gasto muito tempo pelo autor, tempo não remunerado, e é lógico que pessoas próximas ou por falta de capacidade ou por não querer ofender, dizem que está bom.

Além disso, tem outro fator, um texto lido de graça, eu, como leitor posso aceitar uma qualidade menor, afinal é de graça. Mas se eu estou pagando para ler aquela história, aquela qualidade já não me serve mais.  Agora é o meu dinheiro que estou deixando de comprar outros itens para gastar na sua história.

Existem diversos profissionais que podem deixar o texto do autor preparado para publicação, o problema é que esses profissionais precisam de renda para viver, logo, são remunerados. E o autor, muitas vezes, não possui a renda ou a critica necessária para contratar profissionais que vão mexer na sua obra, no seu filho lindo e perfeito.

2) Editoras caça-níqueis e autores afoitos.  Uma editora só vai lançar um livro de um autor nacional, se tiver o mínimo de retorno, ou que pelo menos o livro pague os custos. Um autor iniciante normalmente não possui uma base de fãs necessária para que isso ocorra. Logo as editoras, que financiam livros, preferem autores que já possuam uma base de fãs a um que vai sair do zero. Isso é um entrave grande a novos autores. É duro ter um texto bom, que passou pela primeira seleção, ser descartado simplesmente porque o autor é desconhecido e não consegue mobilizar um grande público. Uma alternativa para esse problema é o autor financiar suas obras iniciais, auto publicar-se ou ir publicando em ferramentas gratuitas como Wattpad para ir construindo sua base de fãs.

A grande questão é que muitas vezes, ou pelo autor ser afoito, ou por resolver publicar por editoras não tão sérias, é que o trabalho editorial vai ficar meia boca. É um processo caro e que demanda muitas horas de todos os envolvidos: Editores, diagramadores, revisores, preparadores, ilustradores… Um trabalho editorial meia boca, acaba por queimar o livro e o autor e jogar no mercado uma enxurrada de livros ruins.

3) O autor nacional, termina nas editoras pequenas e com menos visibilidade, marketing, distribuição e tiragem. Isso quando não cai em uma caça-níqueis que nem distribuir o livro vai. Editar um livro de autor nacional é muito mais trabalhoso e arriscado do que simplesmente comprar os direitos de uma tradução, traduzir e publicar. Logo, ao mesmo custo financeiro, é melhor pegar um texto lá de f17668959_1306750322734122_1494729550_oora que deu certo, do que apostar em um autor nacional. Traduzir um texto é caro, logo editoras maiores que fazem tiragens maiores, diluem o custo da tradução que normalmente é fixo e o pagamento dos direitos antecipados, com isso, na dúvida, melhor pegar um texto já aprovado e com boas vendas na origem do que correr o risco com o autor nacional.

Logo, é nas pequenas editoras que o autor nacional terá mais chance, mas são as mesmas que possuem menos verba pra marketing, propaganda, distribuição, etc… É necessário que o autor tenha iniciativa e pró-atividade. Uma editora pequena ficará mais segura de apostar em um novo talento, se o autor for motivado para correr atrás e divulgar o seu livro.

Imagina a dificuldade para uma editora pequena conseguir colocar o livro dela de terror na mesma prateleira que o Stephen king, e conseguir mostrar pro leitor que o livro dela pode ser tão bom quanto. Passo por isso o tempo todo. Provar que os livros da AVEC têm tanta ou mais qualidade literária que o que vem de fora, é uma tarefa de Davi contra Golias. Uma luta diária.

Ahhh, mas o autor conseguiu um contrato com uma editora grande, se deu bem, né? O pior que nem sempre é verdade para o autor nacional. Se ele não tem uma base de fãs, a editora grande vai rodar tiragens grandes para distribuir para todo o mercado. Já conheci caso de autores cujas obras foram premiadas, mas não tiveram o resultado de vendas que a editora grande precisava. Estar em uma editora grande e ter que vender 3000 ou mais exemplares para ser relevante, pode ser mais complicado do que estar em uma pequena e ter que vender 500.

De uma maneira geral, as editoras conseguem fazer algum esforço de vendas no lançamento, depois disso, é o trabalho do autor e o boca a boca que seguram o livro. As editoras, grandes ou pequenas, já têm que passar para o lançamento do mês seguinte.

4) As livrarias precisam pagar suas contas. O custo do espaço nas livrarias é alto, mesmo o livro consignado, custa para a livraria mantê-lo exposto se ele não vende. Imagina então, se o livro for comprado. O comprador da livraria ou da rede, se tiver que escolher entre um romance traduzido, best-seller no exterior, com verbas de marketing para divulgá-lo, ou um livro nacional de um autor desconhecido lançado por uma editora pequena, muitas vezes sem saber se a qualidade é boa ou não e sem saber se o leitor vai querer lê-lo, com certeza vai em primeiro lugar garantir exemplares do primeiro tipo, e depois se sobrar verba ou espaço comprar produtos das editoras menores.

Assim como eu sou procurado por diversos autores com textos que ainda não estão prontos, os compradores das livrarias são bombardeados com livros de autores nacionais independentes, de pequenas, médias e grandes editoras, logo, na dúvida se o produto é bom ou não, melhor recusar. É melhor recusar um livro que poderia vender bem, do que aceitar um com chances encalhar.

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5) O dinheiro do leitor é contado. Se eu tenho verba restrita e quero trocá-lo por experiências literárias relevantes, e não quero errar, é quase certo que vou comprar o último livro do autor best-seller do qual já li outros livros ou já ouvi falar bem e que está bem exposto nas livrarias do que me aventurar com um autor nacional, com todos os riscos já demonstrados acima.

Há exceções no mercado, mas essa é a lógica por trás de cada etapa.

Só com muito trabalho e profissionalizando toda a cadeia é que podemos ter um mercado nacional diferente. Pelo menos, o mercado já está um pouco melhor do que foi a alguns anos, mas ainda tem que avançar muito.

E no final, já que ninguém é de ferro, vou fazer o meu jabá! Conheça o catálogo de livros e quadrinhos da AVEC Editora e apoie a literatura nacional: https://goo.gl/fO0JHD

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